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Evolução da mulher perante a sociedade como papel de âncora pelo viés do programa Saia Justa

Artigo Científico escrito por: Luana L. Moraes,
Elina Mara Azevedo,
Esmeralda Santos, Sandra Cotrim e Barbara Sherman.

  A figura da mulher dentro da sociedade sempre foi definida como uma posição de coadjuvante,  sempre sendo vista como uma auxiliar do homem, tendo como papel principal cuidar da criação dos filhos e ser uma esposa de respeito. Durante séculos as mulheres que não se casavam eram discriminadas pela sociedade e rejeitadas até mesmo por suas próprias famílias. Após a Revolução Industrial, o papel da mulher começou a mudar, passaram de mães e esposas, a ocupar a posição de trabalhadora também. Como dias Maria Berenice Dias em seu artigo, Mulheres da vida pública.  

O ingresso da mulher no mercado de trabalho ocorreu 
com a Revolução Industrial, que buscou na mão-de-obra feminina a forma de baratear custos. A baixa auto-estima a fez aceitar remuneração inferior, ainda quando no desempenho da mesma função. Se tal fato levou a mulher para fora do lar, começando a contribuir para o sustento da família, os encargos domésticos continuaram sob sua exclusiva responsabilidade. (DIAS, 2004, p. 49)

  E desde então as mulheres passaram a ter uma variedade de “papéis” dentro da sociedade,  ocupando espaço no mercado de trabalho em vários setores, e na mídia não foi diferente, porém os folhetins do século XVIII, abordavam assuntos do cotidiano voltado para o estereótipo da criação dos filhos e do romance mais açucarado. 
   Hoje em dia permeia-se no jornalismo programas mais opinativos e informativos dentro do gênero de programa feminino, mas não abandonando os assuntos triviais do cotidiano, como moda, casa, relacionamento, culinária e outros. Em nosso estudo ao analisar o programa feminino Saia Justa e a evolução da mulher e dos assuntos abordados ao longo do tempo, procuramos analisar o atual papel da mulher dentro do meio de comunicação visual. Segundo o site do programa o canal Globo News Television (GNT), o Saia justa em 17 de abril de 2002 iniciou os trabalhos sendo exibido todas às quartas - feiras às 21h30 da noite, de acordo com o site do semanal, ele já conta com 17 temporadas, incluindo os especiais de verão. 

  Ao longo dos últimos dezesseis anos, o semanal, já contou com a presença de grandes nomes do jornalismo, das artes cênicas e até do meio político, como é o caso de Soninha Francine, a partidária,  que na época atuava no PSOL ( Partido Socialismo e Liberdade). 

 A primeira formação do programa foi apresentado por um time cem por cento feminino, a cantora e compositora Rita Lee, a escritora e roteirista, Fernanda Young, a atriz e humorista 
Marisa Orth e sendo ancorado pela jornalista, Mônica Waldvogel.
Da esquerda para direita Marisa Orth, Fernanda Young, Rita Lee e Mônica Waldvogel - Fonte Portal  Uol notícias

  No início as apresentadoras abordavam temas de circulação de jornais nacionais e internacionais, além de assuntos do cotidiano, como filhos, saúde, trabalho e espiritualidade. A âncora, Mônica Waldvogel conduzia a chamada de cada tópico, sempre separados por blocos, durante a uma hora de programa, e as demais apresentadoras debatiam sobre o tema. 
  
  A primeira formação se manteve até 19 de maio de 2004, no especial do programa de número 100, quando a compositora, Rita Lee, deixou o semanal para se dedicar a carreira de cantora, e foi substituída pela artista plástica e filósofa Márcia Tiburi. No início de 2005 a atriz Marisa Orth deixou o programa junto com Fernanda Young, onde era formada uma nova equipe de apresentadoras, composta também por Luana Piovani e Betty Lago. No ano de 2006 o programa ganhou prêmio Qualidade Brasil de melhor programa da TV a cabo.  O elenco do Saia Justa já passou por mais de seis formações ao longo dos anos, algumas apresentadoras passam apenas uma temporada no semanal, como é o caso mais recente da atriz e defensora dos direitos das mulheres negras da ONU - Brasil Mulher (Organização das Nações Unidas), Taís Araújo, na temporada de 2016, trouxe um novo olhar para as temáticas abordadas, como o feminismo negro, o protagonismo da mulher negra na sociedade, além de racismo e preconceito, a apresentadora trouxe a voz da mulher negra para dentro do programa e sua saída aconteceu no fim do ano de 2017. 

  As nuances do programa são notórias, e ao longo do tempo é perceptível as alterações não só das apresentadoras, mas também postura das mesmas, os temas escolhidos e como eram abordados.

  Do primeiro programa a ser exibido nota-se a postura das apresentadores e a personalidade de cada uma delas. Rita Lee, uma mulher de presença e postura completamente diferente das demais. Seu jeito espontâneo, sua fala e sua conduta presencial, de forma única. Dona do ritmo brega, Rita Lee não esconde sua verdadeira identidade. "Esse chapéu, já podemos dizer que é uma bufa química". Diz Rita no primeiro programa com o tema de Escatologia. 
Diferente das suas colegas de trabalho da época, que permaneciam com a postura formal. E desde então o programa em suas formações buscou trazer uma mulher mais descontraída e que não se intimida em suas opiniões. 

  O novo time do Saia Justa é integrado pela jornalista Astrid Fontenelle, que já está no semanal a mais de dez anos, a cantora de rock, Pitty, a cantora amazonense, Gaby Amarantos e também pela comediante e atriz, Mônica Martelli, que já está no programa a mais de três temporadas. O Saia Justa, em suas formações ao longo dos anos, sempre buscou trazer mulheres fortes e independentes para abordar os mais diversos temas. Mulheres empoderadas que conseguem abordar os mais diversos assuntos.

 O programa se define em um horário, onde os assuntos polêmicos ganham espaço para discussão, mas ainda mantendo a raiz de falar sobre assuntos cotidianos e dando oportunidade de interagir com seu público através das redes sociais. As mulheres do Saia Justa, se definem como mães, mulheres empoderadas, fortes e que sabem o que querem. 

O conceito de gênero 
  O conceito de gênero funciona como uma divisão binária, ou seja, que se divide em dois opostos: homem e mulher. O sexo é definido biologicamente como base a genitália, no entanto o sexo não determina por si só a identidade de gênero ou orientação sexual de uma pessoa. A definição de homem e mulher surgiu de uma divisão biológica, porém, um indivíduo pode ter outras identidades que refletem diferentes representações de gênero.
 Gênero se refere a formas de se identificar e ser identificada como homem ou como mulher. Orientação sexual se refere à atração afetivossexual por alguém de algum/ns gênero/s. Uma dimensão não depende da outra, não há uma norma de orientação sexual em função do gênero das pessoas, assim, nem todo homem e mulher é “naturalmente” heterossexual. O mesmo se pode dizer da identidade de gênero: não corresponde à realidade pensar que toda pessoa é naturalmente cisgênero (Artigo: orientação sobre identidade de gênero – Jaqueline Gomes de Jesus, 2012).
 As filosofas  Simone de Beauvoir e Luce Irigaray teorizaram o papel e a figura da mulher na sociedade. Com isso, abriram portas para novas discussões sobre gênero – discussões essas exaltadas, dando um caráter indefinido para o conceito de gênero.
Ser um homem ou uma mulher, então, não é um estado predeterminado. É um tornar-se; é uma condição ativamente em construção. 
( Gênero, uma perspectiva global, 2015)
O conceito de gênero x Orientação sexual e o Empoderamento
 A filósofa Judith Butler em seu livro “ Problemas de Gênero - Feminismo e Subversão da Identidade”(2015), ressalta que o gênero precisa ser assumido pela pessoa, mas isso não acontece num processo de escolha, e sim de construção e de disputas de poder, porque, afinal, o sistema de gêneros é hierárquico e conta com relações de poder.
  As identidades de gênero fogem do binarismo “homem e mulher”. Existem pessoas com mais de um gênero. A identidade diz respeito ao gênero que um individuo se identifica, há quem se perceba como homem, como mulher, como ambos ou mesmo como nenhum dos dois gêneros: são os chamados não binários. 
  A orientação sexual é a inclinação do indivíduo no sentido afetivo, amoroso e sexual. Ou seja, sentem atração por um determinado gênero/sexo. Os homossexuais são pessoas que sentem atração afetiva e sexual por pessoas do mesmo gênero/sexo.  Heterossexuais são pessoas que se atraem pelo gênero/sexo oposto. Já os bissexuais, sentem atração afetiva e sexual por qualquer pessoa do binarismo de gênero: “homens” ou “mulheres”. A assexualidade diz respeito às pessoas que não sentem atração por nenhum gênero. Os pansexuais sentem atração que não depende do gênero ou sexo.

  Supondo por um momento a estabilidade do sexo binário, não decorre daí que a construção de “homens” aplique-se exclusivamente a corpos masculinos, ou que o termo “mulheres” interprete somente corpos femininos. Além disso, mesmo que os sexos pareçam não problematicamente binários em sua morfologia e constituição (ao que será questionado), não há razão para supor que os gêneros também devam permanecer com número de dois.
(Judith Butler, Problema de gênero – 2015).

A influência do gênero feminino no programa Saia Justa

  O time de apresentadores do programa Saia Justa é majoritariamente composto por mulheres, o que gira em torno de diversos aspectos: a quebra de tabus, representatividade feminina na mídia e empoderamento.

  A primeira formação do elenco foi em 2002, e em meados de 2012, o formato do programa foi alterado, tendo como apresentadores o músico Léo Jaime, os atores Dan Stulbach e Eduardo Moscovis e o jornalista Xico Sá. A partir de 2013 o elenco foi novamente substituído tendo a formação cem por cento feminina. Dentro da questão de gênero e orientação sexual nessa mesma época uma das apresentadoras que se identifica como lésbica era a jornalista Barbara Gância. 

  O estereótipo funciona como um carimbo que alimenta os preconceitos ao definir a prioridade de quem são e como são as pessoas. 
[...] Silenciosamente, vão sendo demarcados, com uma linha nada imaginária, os lugares dos homens e os lugares das mulheres. E os homens e as mulheres que fugirem desse roteiro pré-definido terão seus valores humanos ameaçados ou violados (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009, p. 26-28).

   Tudo o que é falado nos meios de comunicação de massa (rádio, televisão, etc.) já nasce poderoso em diversos aspectos. Um dos mais visíveis é o poder de convencimento; em contrapartida, o que aparece na mídia é também um reflexo do que a sociedade vive. Com o elenco comandado por mulheres, é discutido e colocado em pauta a condição da mulher em sociedade, e principalmente o lugar de fala com relação aos direitos de discutir a própria imagem, e também aquilo que afeta um indivíduo enquanto mulher. É também a quebra de um tabu antigo e retrógrado: as apresentadoras desmontam a ideia de sexualidade, padrões de beleza e normas estereotipadas da mulher brasileira. 

Fontes: 
http://gnt.globo.com/programas/saia-justa ) Canal oficial do GNT link visitado dia 15.04.2018 ás 15h00
http://tracc-ufba.com.br/sem-categoria/15-anos-de-saia-justa-no-gnt/  ARTIGO 15 ANOS DE SAIA JUSTA - Link visitado dia 02. 05.2018 ás 19h00
http://www.revistas.usp.br/extraprensa/article/view/107635  ARTIGO link visitado 09.05.2018 ás 18h40


O artigo foi escrito para a matéria de metodologia e pesquisa orientada pela professora Silvana da Universidade Cruzeiro do Sul.

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